Perfeccinismo na dança: uma "faca de dois gumes"?

Dica de filme para reflexão sobre o tema: Cisne Negro.

No filme Cisne Negro, a bailarina Nina (Natalie Portman) tem uma rotina bem regrada e demandas muito altas quanto ao seu desempenho na dança - sejam exigidas por sua mãe (ex bailarina), como por seus professores. Diante de todo seu histórico, Nina sonha em alcançar a “perfeição”. Nesse processo, desenvolve comportamentos com padrões obsessivos e psicóticos. O que nos mostra o quanto saúde, dança e vida estão interligadas.

Que tal aproveitar para assistir ou reassistir a esse filme incrível, refletindo sobre as origens e os efeitos de um perfeccionismo patológico?

1 - Evite ao máximo julgar-se como “ruim”, ou usar outros adjetivos generalistas e depreciativos, que não sinalizam o que precisa ser modificado e te desestimulam. Ao invés disso, identifique RESPOSTAS ESPECÍFICAS que poderiam ser refinadas - e DESCREVA essas respostas, por exemplo: “Esticar mais o pé”. É recomendável ter um caderninho para você anotar essas correções, após suas observações em aulas, treinos ou vídeos. Você também pode contar com o auxílio de um professor nesse processo.

2 - Valorize também os seus PONTOS POSITIVOS! E anote-os, se for preciso. Reconheça as suas evoluções após os treinos, elogie-se, presenteie-se.

3 - É muito positivo ter modelos e inspirações na dança, porém, é muito importante reconhecer que, como todo e qualquer repertório comportamental, aquele que você admira também passou por um processo e uma história para ser “construído”. Portanto, DIVIDA SEUS SONHOS EM METAS pequenas e realísticas. Por exemplo, comece treinando um passo específico da bailarina que você admira ou dançando apenas o primeiro minuto daquela música de dez minutos que deseja dançar. Depois que alcançar a meta, parta para a próxima (que exigirá um repertório maior), e assim por diante.

4 - COMPARE-SE SOMENTE COM VOCÊ MESMA(O). Lembre-se que você possui uma história única e ninguém é como você. A sua beleza está justamente na sua imperfeição e em como você lida com ela.

5 - Só para reforçar: TREINE! Nada melhor do que o treino para refinar as suas respostas na dança e mostrar que tudo é possível, mas é necessário um caminho a se percorrer.

Espero que essas estratégias possam te auxiliar. Estamos juntas(os) nesse processo de autoaceitação, paciência e superação! 


Referências:

Stoeber, J. (2014). Perfectionism in sport and dance: A double-edged sword. International Journal of Sport Psychology, 45(4), 385-394.

Giovanna Xavier. Psicóloga Mestre, bailarina e professora de dança do ventre. giovannaxavierpsicologa@hotmail.com \ +55 67 981765572

Você já parou para perceber o quanto o perfeccionismo interfere no seu desempenho na dança (às vezes, de forma muito positiva, outras, muito negativa)? 

Quando falamos em perfeccionismo, estamos dizendo respeito a nada mais que alguns padrões comportamentais que uma pessoa apresenta - os quais classificamos como “perfeccionistas”. Geralmente, tratam-se de respostas controladas por um modelo considerado ideal, que também é reforçado socialmente.

Estudos da Psicologia da Dança e Psicologia do Esporte (Stoeber, 2014) mostram que existem basicamente dois padrões gerais de comportamentos categorizados como perfeccionistas. 

O primeiro está associado aos chamados "esforços perfeccionistas", geralmente manifestados por bailarinos e atletas saudáveis que orientam seu comportamento ao reconhecimento de seus próprios esforços e à superação de seu próprio desempenho, do que a necessariamente "vencer" ou "ser o melhor". Este padrão comportamental normalmente é acompanhado de maior satisfação e caracteriza-se pela maior presença de respostas de tolerância, resiliência e persistência.

Já o segundo padrão está associado às "preocupações perfeccionistas", manifestadas por bailarinos e atletas que orientam seu comportamento a ganhar sempre ou atingir um modelo de perfeição idealizado ou irrealístico; tal padrão, por sua vez, está mais ligado à insatisfação, autosabotagem e desistência na dança, bem como, pode estimular comportamentos obsessivos em relação à dança, além de outros sintomas. (Em alguns casos, recomenda-se buscar intervenção clínica).

Visto isso, vamos para algumas perguntas: Você se identifica com algum destes padrões de perfeccionismo? Como o perfeccionismo tem afetado sua relação com a dança e seus objetivos e sonhos? Vamos pensar melhor em como lidar com ele? Exercitar o autoconhecimento, identificando os padrões perfeccionistas do seu comportamento, já é o 1º passo! 

Feitas estas perguntas, serão propostas algumas estratégias psicológicas/comportamentais para lidar de forma mais saudável e eficaz com o perfeccionismo. Afinal, "ele" pode ser um bom aliado do bailarino, desde que orientado da forma adequada.