1 - Cada um é cada um

A dança/movimento terapia deve ser pensada especificamente para cada criança - dentro do espectro autista, existem muitas diferenças em relação aos sinais do transtorno. Além disso, como cada indivíduo carrega uma história, as habilidades podem ser ou ter sido mais ou menos desenvolvidas de caso para caso. A TEA também é marcada por comportamentos, interesses e atividades repetitivas, de forma que não apenas as dificuldades, mas também as potencialidades da criança autista podem ser ferramentas importantes no trabalho do dança-terapeuta.

Assim, o início do trabalho do dança-terapeuta inclui entrevistas com os familiares, observação dos movimentos da criança e testes para avaliar a integração sensorial do aluno (Martin, 2014), bem como uma definição das necessidades de desenvolvimento para a criança com quem será realizada a terapia.

2 - Estabelecendo conexão e segurança

Badenoch e Bogdan (2012) apontam que o sistema nervoso de muitas crianças com autismo é super responsivo, entendendo como ameaça ou perigo estímulos considerados neutros pela maioria das demais. Isso também dificulta o entendimento das intenções das pessoas ao redor. Por isso, estabelecer um ambiente de calma e segurança para conduzir as sessões de dança/movimento terapia é essencial e esta pode ser uma prática levada para a sala de aula de dança. O professor pode, por exemplo, utilizar objetos que gerem conforto e interesse para a criança no espaço da terapia, bem como diminuir estímulos que podem ser considerados desagradáveis para determinada criança - como uma música muito alta, por exemplo.

Outro ponto que faz toda a diferença para a segurança do aluno é entender como a criança se sente mais confortável para se comunicar - alguns indivíduos autistas são mais expressivos verbalmente, enquanto outros são muito limitados neste aspecto ou não-verbais. É importante que a criança se sinta segura, percebida e entendida dentro do seu universo, e é responsabilidade do terapeuta criar essa atmosfera tranquila, imprescindível ao desenvolvimento de qualquer interação.

3 - A técnica do espelho

Desenvolvido esse espaço específico para cada aluno, as técnicas que incluem de fato a dança e o movimento podem começar a serem aplicadas, sem necessariamente uma ordem específica - tudo depende das necessidades particulares de cada criança. Tortora (2006) define a técnica de mirroring (traduzida livremente como técnica do espelho) como um processo que compreende a exata incorporação da forma e da qualidade dos movimentos e sentimentos envolvidos nas ações de outra pessoa, gerando uma imagem física e emocional espelhada. 


Essa técnica é especialmente importante porque uma das características centrais de indivíduos com TEA é a dificuldade motora e cognitiva de imitar movimentos ou comportamentos de outras pessoas, habilidade intimamente ligada ao desenvolvimento da empatia e da reciprocidade na interação social. A técnica de mirroring permite não só ao terapeuta refletir os movimentos da criança, criando conexão, como também desenvolver nela a capacidade de imitar, resultando em uma melhora consequente de suas habilidades de socialização e comunicação. Este conceito também pode ser levado para dinâmicas de aulas de dança regulares.

4 - Desenvolvendo a percepção do corpo e coordenação motora

O contato com o mundo através do movimento e das experiências são o ponto de partida para que qualquer criança crie um senso de si mesma e de seus corpo no mundo. Logo, se uma criança tem dificuldades para estabelecer interações físicas e emocionais, talvez por questões neurobiológicas associadas ao TEA, sua percepção de si mesma fica comprometida, tornando mais difícil também a habilidade de compreender a perspectiva do outro (Cozolino, 2006).

Por isso, a dança/movimento terapia pode se utilizar de intervenções focadas primeiro em partes do corpo e em coordenação básica, encorajando a criança a perceber o próprio corpo e o ambiente ao redor. Tortora (2006) explica que o professor pode observar e intervir quando necessário, primeiro se concentrando no movimento dos membros em relação ao corpo e do movimento como um todo, depois focando em como as diferentes partes trabalham - ou não - juntas no estabelecimento de ações e qual a percepção ou intenção da criança ao executá-lo. Por último, pode avaliar e estimulá-la a entender o senso geral a respeito de seus movimentos. Essas categorias ajudam o terapeuta e a própria criança a entender seu senso de si mesma, suas experiências emocionais, bem como sua sensibilidade ao ambiente.

5 - Tempo e ritmo

A DMT incorpora o uso do ritmo para sintonizar o aluno, facilitando a interação e a comunicação e ajudando na organização de seus pensamentos e sentimentos. A melhor forma de trabalhar o ritmo com indivíduos diagnosticados com TEA é aproveitar algum movimento rítmico natural da criança, como um balanço para trás e para frente ou para cima e para baixo de alguma parte do corpo. A partir disso, o autista pode sentir-se visto e estabelecer uma relação com o terapeuta, que então pode escolher aumentar a ênfase do movimento e eventualmente acrescentar mudanças que expandam o repertório e experiência da criança com o ritmo.

Para os pesquisadores, a habilidade de sincronizar com ritmos externos de seu ambiente pode ser usada pelas crianças, de outras formas, para desenvolver interações comunicativas e sociais.


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Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

REFERÊNCIAS:


American Dance Therapy Association. (2009). Retirado de http://adta.org/About DMT.

Badenoch, B., & Bogdan, N. (2012). Safety and connection: The neurobiology of play. In L. Gallo-Lopez, & L. C. Rubin (Eds.), Play-based interventions for children and adolescents with autism spectrum disorders (pp. 3–18). New York, NY: Routledge.

Cozolino, L. (2006). The neuroscience of human relationships: Attachment and the developing social brain. New York, NY: WW Norton & Co.

Donnellan, A. M., Hill, D. A., & Leary, M. R. (2012). Rethinking autism: Implications of sensory and movement differences for understanding and support. Frontiers in Integrative Neuroscience, 6, 124.

Iverson, J. M. (2010). Developing language in a developing body: The relationship between motor development and language development. Journal of Child Language, 37(2), 229 (abstract).

Martin, M. (2014). Moving on the spectrum: Dance/movement therapy as a potential early intervention tool for children with Autism Spectrum Disorders. The Arts in Psychotherapy, 41, p. 545–553. 


Tortora, S. (2006). The dancing dialogue: Using the communicative power of movement with young children. Baltimore, MD: Paul H Brookes Pub Co.

COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO:


Lopes, M. C. (2020, abril 02). A dança como terapia: 5 coisas que você precisa saber sobre o trabalho com autistas [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/a-dan-a-como-terapia--5-coisas-que-voc--precisa-saber-sobre-o-trabalho-com-autistas.html

Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Por muito tempo, as deficiências motoras e as dificuldades de socialização e comunicação foram vistas como áreas separadas de estudo e intervenção nas pesquisas relativas ao autismo (Martin, 2014). Na realidade, os desafios sociais e comunicativos mais comuns do autismo - como dificuldade de empatia e percepção do outro, alto nível de pensamento abstrato, dificuldade de manter a atenção compartilhada, a reciprocidade emocional e a linguagem funcional - presentes em maior ou menor nível dependendo do grau de autismo do indivíduo, sempre se apresentaram como foco das intervenções voltadas ao desenvolvimento autista.

Contudo, muitos pesquisadores apontam que o desenvolvimento do movimento e da comunicação estão intimamente ligados um ao outro, sobretudo na primeira infância (Iverson, 2010). Crianças experimentam o mundo com seus corpos antes de desenvolver uma linguagem verbal, e a interação que estabelecem com o mundo através de suas habilidades motoras transformam suas experiências com objetos e pessoas, tanto na infância como nas idades posteriores.

Crianças autistas costumam apresentar algumas diferenças motoras e de interação com o ambiente logo nos primeiros meses e anos de vida. Mas se estimuladas, podem desenvolver concomitantemente habilidades motoras, de socialização e comunicação ainda cedo, favorecendo que se expressem e explorem o potencial de sua própria neurodiversidade. Além disso, Donnellan et. al (2012) explica que muitos indivíduos diagnosticados com um Transtorno do Espectro Autista (TEA), desejam se comunicar, participar e se relacionar, embora não consigam devido às suas dificuldades.

Considerando todos esses aspectos, a dança/movimento terapia (DMT) surge como uma uma das opções de tratamento complementar para autistas, sobretudo na infância, em que o desenvolvimento precoce pode ajudar a potencializar as habilidades futuras do indivíduo. Como descrito pela American Dance Therapy Association (ADTA), a DMT é uma psicoterapia que usa o movimento para promover a integração emocional, cognitiva, física e social do indivíduo. Explorando o uso da reflexão, harmonia, interações de movimentos sincronizados, técnicas de espelho e ritmo, a DMT tem ajudado crianças autistas a conhecer melhor a si mesmas, bem como a melhorar sua interação com o mundo.

Confira abaixo cinco aspectos sobre como a dança/movimento-terapia funciona com alunos autistas - e como ela pode ajudar a desenvolver habilidades motoras, sociais e de comunicação nos indivíduos.


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A dança como terapia: 5 coisas que você precisa saber sobre o trabalho com autistas

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela