Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

A dança e o medo: saiba o que pode estar causando esse sentimento e como lidar com ele

REFERÊNCIAS:


Lopes, C.  (2019). Dançar sem medo. Centro de Psicologia Movimente – Movimento e Dança.

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COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO:


Lopes, M. C. (2020, abril 03). A dança e o medo: saiba o que pode estar causando esse sentimento e como lidar com ele [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/a-dan-a-e-o-medo--saiba-o-que-pode-estar-causando-esse-sentimento-e-como-lidar-com-ele.html

O contexto em que se desenvolve a prática da dança influencia na forma como o indivíduo enxerga a si mesmo. Correções demasiadas e elogios menos frequentes, por exemplo, podem ser interpretados pelo aluno como uma exigência de perfeição que prejudica a performance. Ele precisa entender – e os mentores a frente do processo, também – que mesmo buscando uma técnica mais limpa todos os dançarinos erram, e que isso é parte do processo normal de aprendizagem. A própria percepção de competência do indivíduo faz diferença: se você não se sente capaz, qualquer desafio gerará medo além da dose saudável. Perceber o que executamos bem é importante para enfrentar futuros desafios.

Nossas experiências orientam nossa interpretação das diversas situações ao longo de anos, e ressignificar nossos medos deve acontecer de maneira lenta e gradual. Muitas vezes, isso acontece de forma não planejada – uma conversa com um colega ou professor, por exemplo, pode ajudar a colocar novas perspectivas sobre uma questão, motivo pelo qual é tão importante manter uma rede de apoio social para lidar com a ansiedade, relatando dificuldades e preocupações. Filmes e séries ou mesmo situações do cotidiano também podem levar a novas reflexões sobre determinados assuntos.


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Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

Mas enfrentar ativamente a ansiedade é uma opção bastante vantajosa para o dançarino. Hoje, a psicoterapia e a psicologia da dança já têm estratégias estruturadas no sentido de identificar e lidar com os medos envolvidos na prática da atividade. Umas delas é, após identificado os sintomas e os medos, questionar-se sobre eles com perguntas diretas ou indiretas. Veja os três exemplos de questionamento abaixo.

1 -  O que eu diria a um amigo que tivesse o mesmo medo?

2 – O meu medo é inadequado, irracional, exagerado ou desproporcional?

3 – Qual a interpretação mais adequada para essa situação?

Imaginar que o medo é de outra pessoa pode ajudar a sair da situação e enxergar o problema mais racionalmente, enquanto que as outras duas questões levam a entender mais a fundo o medo e a pensar em formas de agir diferentes perante ele.

Dito tudo isso, chegamos a conclusão de que lidar com o medo não significa eliminá-lo. Isso, além de impossível, não é saudável para a sua dança – a ansiedade, em doses médias, torna o indivíduo mais ativo e alerta, auxiliando no aumento do seu desempenho nas atividades. Lidar com o medo é entendê-lo e encará-lo de frente, investindo em estratégias boas e eficazes para torná-lo um aliado dos seus objetivos na dança.


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O medo é uma condição comum na dança. Ao mesmo tempo que a atividade é reconhecida como uma prática que reduz as condições de estresse e ansiedade, o rigor técnico e a exigência perfeccionista, aliados à intensidade de momentos como ensaios, apresentações e competições, podem criar um contexto propício ao aumento da ansiedade, em cima de uma série de crenças e pensamentos construídos pelo dançarino ao longo de sua trajetória.

Embora seja mais intensa nos períodos pré e pós apresentação, a ansiedade também está presente no dia a dia do bailarino, e pode se manifestar em sintomas físicos e mentais. Coração acelerado, boca seca, suor excessivo, agitação e muita vontade de faze xixi (Lopes, 2019) são o reflexo corporal de pensamentos muitas vezes obsessivos sobre erros, técnicas, quedas, lesões, críticas, comportamento adversário e até mesmo de seus próprios colegas e professores. 

Estratégias como distrair-se e alongar-se são bastante úteis na hora de acalmar o corpo para entrar no palco ou passar tranquilamente por um ensaio (veja mais sobre estratégias para relaxar antes de uma apresentação aqui). Mas, uma vez que os medos estão baseados na interpretação que o indivíduo tem de sua realidade, ressignificar algumas situações é de extrema importância para controlar essas emoções e aumentar o desempenho a longo prazo. É necessário saber identificar com precisão tanto os sintomas quanto as causas dos medos que estão enraizados na prática da dança e no próprio indivíduo.

Alguns causadores de ansiedade são adequados e nos deixam mais ativos e alertas, o que é excelente em apresentações, enquanto outros nos deixam excessivamente estressados e prejudicam o desempenho. É normal ter medo de se lesionar, de uma execução ruim e de decepcionar o público – na dose certa, isso fará com que você seja mais consciente, cuidadoso e exija mais de si mesmo tecnicamente. Mas em excesso, ele fará com que você ‘trave’, se preocupe excessivamente com erros pequenos e com a opinião alheia, recaindo em performances piores em aulas, ensaios e apresentações.

Lopes (2019) listou em quatro grupos alguns exemplos de fatores estressores presentes na prática da dança e que podem influenciar no desempenho do dançarino. Confira a tabela abaixo: