A dança e o bem estar

Em contraste com estudos prévios de dança, os jovens dançarinos dos CATs, avaliados por mais de duas temporadas na pesquisa, apresentaram altos níveis de bem estar, que se mantiveram estáveis ao longo do tempo. Além disso, também apontaram bons níveis de autoestima e de paixão harmoniosa pela dança (passion harmonious, em tradução literal, significa uma forma flexível de engajamento — neste caso, um engajamento com a dança – que não causa conflitos entre diferentes áreas da vida). Em contrapartida, foram moderados os níveis de perfeccionismo e paixão obsessiva pela atividade, e baixos os de transtornos alimentares, aspectos comumente encontrados em dançarinos profissionais.

Os resultados fazem sentido, uma vez que a maioria desses tópicos costumam estar relacionados entre si. Dançarinos com uma paixão harmoniosa pela dança, por exemplo, costumam apresentar autoestima alta e baixos níveis de ansiedade, além de resultados melhores, se comparados àqueles da dançarinos com uma paixão obsessiva pela atividade. Já a baixa autoestima e altos níveis de perfeccionismo têm uma correlação positiva com o aparecimento de transtornos alimentares, o que também explica as baixas taxas observadas entres os dançarinos dos CATs.

A sugestão dos pesquisadores com base nesse cenário é para que escolas e companhias realizem palestras sobre bem-estar, promovam uma comunicação aberta entre dançarinos e funcionários e criem políticas próprias de prevenção, focando nos fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos. A ideia é criar um ambiente que valorize o bem estar. 


Os professores, por sua vez, podem ajudar monitorando as atividades físicas dos alunos fora das salas (para evitar sobrecarga) e encorajar estudantes a serem mais flexíveis, além de menos rígidos e mais realistas com suas metas. E uma vez que a maioria dos problemas como perfeccionismo e transtornos alimentares emergem em períodos de estresse (como preparação para apresentações), é responsabilidade dos professores estarem atentos para que suas próprias cobranças sejam realistas para com os estudantes.

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

Conclusão 


Vimos que o bem estar está intimamente ligado ao comprometimento na dança, seja considerando a relação que os dançarinos constroem consigo mesmos, com a própria atividade ou com seus pares. Está nítido que o esforço exagerado, o comportamento perfeccionista e obsessivo e a renúncia a outros aspectos da vida não só não colabora para a saúde do bailarino, como mina a sua performance, que tende a ser prejudicada por quadros de ansiedade, transtornos alimentares e lesões. 

Portanto, estabelecer novos parâmetros de educação e trabalho na dança, considerando não apenas aspectos técnicos e físicos, mas também psicológicos, torna-se fundamental para a construção de dançarinos mais completos, felizes e competentes.


REFERÊNCIAS:

Nordin-Bates, S. et al (2014). Developing talent among young dancers: findings from the UK Centres for Advanced Training. Theatre, Dance and Performance Training, 5:1, 15-30, DOI: 10.1080/19443927.2013.877964.


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2021, fevereiro 24) Bem estar e comprometimento: como a mente pode te ajudar a dançar melhor​ [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/bem-estar-e-comprometimento--como-a-mente-pode-te-ajudar-a-dan-ar-melhor.html

Bem estar e comprometimento: como a mente pode te ajudar a dançar melhor

Comprometimento 

Sem comprometimento, bailarinos jovens podem não desenvolver seus talentos da melhor forma possível (Nordin-Bates et al, 2014). Mas como construí-lo? Nos CATs, os fatores envolvidos com o comprometimento são o divertimento, paixão harmoniosa pela dança, relações positivas com os pares, comportamentos corretos dos professores, suporte parental e as variadas oportunidades que esse esquema oferece.

O divertimento, na dança, inclui auto expressão, domínio da tarefa, apresentação, liberdade emocional e criatividade. Já a paixão harmoniosa, citada novamente aqui, se mostra estatisticamente como uma das chaves para o comprometimento com o treinamento, quebrando o mito de que jovens dançarinos precisam sacrificar todos os seus interesses em prol da dança. Pelo contrário: dedicar-se a outras atividades traz diversos benefícios, não apenas relacionados a reduzir uma potencial obsessão, mas desenvolvendo habilidades físicas e motoras, motivação intrínseca, socialização e divertimento, além de evitando a exaustão e desistência.

Um bom relacionamento com os colegas e a família também aparece como pilar fundamental para o comprometimento. Pais provêm suporte emocional, motivacional e logístico, enquanto colegas não apenas representam um grupo de suporte com interessantes semelhantes, mas é composto por artistas com quem o bailarino irá colaborar, criar e performar. Muitos dançarinos que desistem relatam como um dos motivos relações pobres com seus pares, o que desconstrói a ideia de que o talento se conquista apenas com excelência individual.

Diante disso, boas estratégias indicadas pelos autores para estimular o comprometimento incluem, no caso das instituições, o encorajamento para a construção de boas relações entre os alunos, com atividades sociais, programas de pares ou mentorias e a formação de grupos provisórios e rotativos de estudantes regularmente, visando incentivar o diálogo entre eles. Para incluir os pais, convites informais, encontros e eventos ajudam a torná-los parte da rotina de treino de seus filhos.

Para professores, a dica é ressaltar os aspectos divertidos e agradáveis das aulas sempre que possível, como incluir auto expressão em aulas técnicas e oferecer oportunidades formais ou informais de performance, assim como explorar a criatividade sempre, sejam em aulas específicas para isso ou não.

Comumente, imagens de um esforço sobre-humano, renúncias a outros aspectos da vida e alto perfeccionismo costumam ser relacionadas à rotina de bons dançarinos. Mas, embora façam parte da realidade de muitos indivíduos, essas condições podem e devem ser questionadas na dança.

Esse questionamento deve surgir não apenas porque, primeiramente, condições como essas minam o bem-estar, confiança e autoestima do bailarino. Mas também porque, em segunda instância, prejudicam a sua performance. E existem alternativas não apenas mais saudáveis, mas também mais produtivas para bailarinos dançarem melhor.

Um estudo (Nordin-Bates at all, 2014) com mais de 800 dançarinos entre 10 e 18 anos dos Centres for Advanced Training (CATs) - um programa nacional de desenvolvimento de talentos em vários tipos de dança na Inglaterra -, aponta algumas práticas que podem ajudar a manter dançarinos emocionalmente saudáveis, menos propensos a lesões e ainda mais criativos. 

Abaixo, apresentamos dois tópicos desse estudo, que mostram como questões psicológicas podem influenciar a dança - e como trabalhá-las para que a mente sempre esteja a favor do corpo, saúde e performance do dançarino.


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Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança