Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Então, o que diferencia algo criativo de algo não criativo? Podemos dizer que são as combinações. Se o indivíduo apenas reproduz uma sequência de passos exatamente como aprendeu, por exemplo, ele não está criando. Porém, se ele reorganiza suas experiências em combinações diferentes, ou seja, muda os passos de acordo com a música, ou atribui um estilo próprio à sequência, para utilizar o mesmo exemplo, sua criatividade está em ação.

Partindo disso, é possível concluir que quanto maior a riqueza de experiências do indivíduo, maior a chance de ele fazer conexões, combinações diferentes que transforme os elementos que aprendeu em coisas novas, e não apenas reproduções. Desse ponto de vista, a criatividade depende muito mais da quantidade de experiências vivenciadas pelo indivíduo e sua necessidade de adaptá-las, do que de uma capacidade ou talento inato para a criação.


“A atividade criadora da imaginação está relacionada diretamente com a riqueza e variedade da experiência acumulada pelo homem, uma vez que esta experiência é a matéria-prima a partir da qual se elaboram as construções da fantasia. Quanto mais rica for a experiência humana, mais abundante será o material disponível para a imaginação.” (Vigotsky, 2014, p.12).


Transportando isso para o mundo da dança, é fácil perceber que, do ponto de vista pedagógico, é essencial que para estimular a criatividade o professor funcione como um mediador desse processo, oferecendo a maior quantidade e diversidade possível de experiências para seus alunos.

Isso pode acontecer de diversas formas, como a partir do incentivo para a prática e contato com diversas modalidades, a apresentação de músicas que tirem os alunos de sua zona de conforto, a concessão de autonomia para os alunos elaborarem suas próprias sequências coreográficas e até mesmo o estímulo para que tenham outras atividades fora do mundo da dança.

As possibilidades são infinitas, mas uma delas se sobressai especialmente quando se trata de dança: trata-se da oportunidade de improvisação.


Improvisação: um laboratório de criação

Embora a criatividade seja um tema global que envolve praticamente todas as áreas do conhecimento - como já foi dito, trata-se de uma competência humana a ser aplicada a diversos contextos - sua presença nas artes, e mais especificamente, na dança, tem suas próprias peculiaridades.

Isso porque o processo de criação na dança não se passa apenas na mente, mas também no corpo. É comum que bailarinos não se lembrem de uma coreografia que aprenderam no passado, mas ao ouvir a música, olhar-se no espelho e executar o primeiro passo, o resto flua com certa facilidade, mesmo que não exista a imagem mental daquele passo ou sua execução. Isso é um exemplo do que chamamos de embodied cognition, a capacidade do nosso corpo de armazenar memórias e experiências.

Em outras palavras, as experiências e vivências de um bailarino estão também gravadas em seu corpo e a sua relação com o cérebro é evidenciada; o processo de reprodução e aprendizagem é essencial para que essas experiências fiquem orgânicas. Por isso, o corpo é parte essencial e indissociável da criação na dança, não apenas como ferramenta de uma mente criativa, mas como condutor da própria criação.

Dessa forma, como aponta Kirsh (2011), “o bailarino e o coreógrafo passarão pelo processo criativo enquanto dançam e não necessariamente no período anterior. Assim, o corpo é instrumento da criatividade enquanto se cria. Este corpo é o próprio objeto, instrumento e condutor do processo criativo”.

Dado esse cenário, é essencial que professores e coreógrafos criem um espaço adequado para a criação, que propicie as condições necessárias para que o processo criativo ocorra. E a improvisação parece ser uma das melhores formas de estimular o impulso criativo nos alunos.

Isso porque, como aponta Martins (2002), a improvisação desestabiliza as determinações e a mera reprodução, dialogando com os mesmos e reconfigurando-os, criando assim novas combinações e exigindo a criação. É um espaço de desafio, que estabelece novas situações e obriga os alunos a reorganizar suas experiências para aplicá-las em determinado contexto. Consiste, portanto, em um espaço dotado das condições ideais para o indivíduo criar, e se mediado, pode se tornar um verdadeiro laboratório de criação.


“Nos processos de criação improvisada em dança, a referencia do momento da ação, trás uma idéia ilusória do “aqui/agora”. Este momento envolve nossas memórias, nossas evocações, aquilo que ficou retido, implícito, como o resultado de nossas experiências, interações simultâneas, inconscientes, entre corpo e ambiente.” (Santos & Nogueira, 2002, n.p.)

Novamente, cabe ao professor de dança, o condutor de todos esses processos, avaliar se sua didática propicia ou não espaços de criação para seus alunos. Muitos ambientes de dança, em especial da dança clássica, estão dominados pela disciplina excessiva e reprodução técnica de movimentos, e pouco voltados a proporcionar variedade de experiências e oportunidade de criação para seus aprendizes. Se espera-se mais criatividade da nova geração, é necessário mudar isso.

REFERÊNCIAS


Martins, Cleide et al. (2002). Improvisação dança cognição: os processos de comunicação no corpo.

Santos, P. E. O. & Nogueira, I. C. (2012). Processos cognitivos na criação improvisada em dança: a memória que escreve e se inscreve no corpo. Anais ABRACE, v. 13, n. 1.

Kirsh, David (2011). Creative cognition in choreography. In: Proceedings of the 2nd International Conference on Computational Creatifity.

Vigostsky, L.S. (2014). Imaginação e criatividade na infância. São Paulo: Martins Fontes.


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2022, março 09) A criatividade na dança e a improvisação.​ [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/a-criatividade-na-dan-a-e-a-improvisa--o.html

A criatividade na dança e a improvisação

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

A criatividade é uma competência que permite ao ser humano criar algo novo. Como competência humana, é algo que todos têm - embora seja corriqueiro que isso seja considerado mais uma habilidade do que uma competência; em outras palavras, classificam-se as pessoas em criativas e não-criativas. Mas será que isso está correto? 

Para responder a esta pergunta, é necessário entender um pouco mais a fundo o que é a criatividade, e como se dá o ato de criar. Em primeiro lugar, é importante colocar que é impossível criar algo do vazio, do nada. Necessariamente, tudo o que é criado pelo ser humano é baseado em suas próprias experiências pregressas. Não é errado dizer, portanto, que a criação se baseia no passado.

Para Vigotsky (2014), “a primeira forma de vinculação da fantasia com a realidade consiste no fato de que qualquer ato imaginativo se compõe sempre de elementos tomados da realidade e extraídos da experiência humana pregressa. Seria um milagre se a imaginação pudesse criar algo do nada, ou se dispusesse de outras fontes de conhecimento que não a experiência passada”.