REFERÊNCIAS:


Lopes, M.C. (2019). Curso psicologia da dança: temas e perspectivas. Editora Garcia. Juíz de Fora, MG.

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COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO:


Lopes, M. C. (2020, junho 02).  A dança na adolescência: como motivar os alunos e ajudá-los a crescer [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/a-dan-a-na-adolesc-ncia--como-motivar-os-alunos-e-ajud--los-a-crescer.html

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

Um dos principais aspectos de indivíduo que deve ser levado em consideração ao se trabalhar com dança é o desenvolvimento humano. Segundo Lopes (2019), as funções cognitivas, personalidades, comportamentos e relações interpessoais mudam ao longo dos anos, e possuem características bastante marcantes para cada faixa etária. Nesse sentido, um dos grupos etários que mais apresentam peculiaridades são os adolescentes.

Adolescer é um processo doloroso, e sendo uma fase de transição e escolhas, traz muitos desafios: nessa fase, a sociedade espera que o indivíduo descubra quem é e para onde vai na vida. Embora esse seja um processo constante, é na adolescência que ele surge e se intensifica, na medida em que as pessoas são submetidas a novos papéis e status: iniciar a formação profissional, construir um projeto de vida, buscar por independência financeira, criar vínculos fora do ambiente familiar e alcançar a autonomia (psicológica e emocional).

Não à toa, é nessa fase que muitos adolescentes abandonam ou perdem o interesse pela dança, em meio a tantas responsabilidades que lhe são cobradas ou tantas experiências com que tem contato. Para que isso não ocorra, é preciso em primeiro lugar reforçar o papel da dança na saúde integral do adolescente, e depois, adaptar as aulas para que sejam mais interessantes ao aluno, mas principalmente, para que ajudem no seu desenvolvimento e crescimento. 


A escola ocupa grande parte da adolescência e tem um papel importante na formação do indivíduo, mas mesmo ela não cumpre com a função de explorar as possibilidades de projetos de vida para o adolescente, que muitas vezes nem mesmo chega a cogitar algo que não seja a clássica formação superior. Além disso, focada na formação profissional, ela pode ser bastante falha em desenvolver a busca por independência e autonomia, fundamentais a uma vida adulta saudável, lacuna que a dança pode preencher se as aulas forem bem planejadas para essa faixa etária.


>> Leia também: A dança ajuda o adolescente a desenvolver autonomia e independência: a dança no processo de adolescer.

Por isso, e também porque a fase é de descobertas de si e do outro, as aulas para adolescentes devem estimular sua expressão e criação dentro da dança. Permitir a elaboração de frações de coreografias para aulas e espetáculos pelos alunos, inserí-los em turmas avançadas e mais velhas e estimular a ajuda mútua para aprendizado e trabalho da autonomia são exercícios que favorecem a motivação dos alunos. Eles precisam pensar por si mesmos e livremente, e serem capazes de expressar sua maneira de ver o mundo, mesmo que através do corpo.

Em outras palavras, é preciso fazer com que os adolescentes sejam verdadeiramente envolvidos nas atividades, tomando partido de temas para espetáculos, planejando frações coreográficas. Eles não apenas devem fazer aulas de dança, mas se identificar como bailarinos e sentirem-se integrantes do grupo, da escola e da dança em si. Assim, cria-se condições para que desenvolvam sua autonomia e a independência. 


Em geral, a dança também se estabelece num formato grupal, condição importante para que o adolescente descubra a si mesmo - afinal, essa descoberta se dá também a partir do contato com o outro. Não por acaso, Miranda e Cury (2010) afirmam em seu estudo com participantes de grupos de dança de rua que o ensaio é menos importante para o processo de adolescer do que o “brincar de dançar” com colegas em momento de descontração fora dos horários de aula. Além de ajudar nessa criação de vínculos fora do ambiente familiar e na descoberta do eu, a dança ajuda a colocar o adolescente como protagonista de seu próprio processo, ao propiciar que colegas, familiares, professores sejam espectadores e reconheçam a personalidade do aluno que cria.

Por último, é importante lembrar que a adolescência é um período de transição da infância para a idade adulta, e a confusão identitária sofrida pelo indivíduo no processo pode tornar difícil colocar em palavras seus conflitos. Através do movimento, a dança permite a expressão desses sentimentos, que muitas vezes o adolescente não sabe identificar e com os quais nem consegue lidar de antemão, propiciando a elaboração e regulação das emoções.

“Na dança extravaso, coloco tudo para fora. Se chego aqui triste, danço de um jeito que saio mais leve, melhor depois (...) A dança me deu postura e com ela eu posso me expressar. Posso ficar comigo mesma e saber como estou, e, se estou com raiva, triste ou brava, quando danço, eu coloco tudo isso para fora e deixo lá. Saio melhor do que antes (...) Para mim, dançar está sendo bom por causa da vergonha. Antes eu não estaria aqui falando com você assim sobre isso. Eu ficava mais quieto e deixava os outros falarem; Agora eu falo e fico mais (pensa) é… como vou dizer… ficou mais fácil de falar o que a gente pensa.” (Miranda & Cury, 2010, p. 394-395).

Em suma, a dança não precisa ser apenas um pano de fundo na fase da adolescência: se bem ministrada e conduzida nas salas de aula, ela pode ser um dos melhores caminhos para a descoberta do eu, a criação da autonomia, a expressão das emoções e a criação de vínculos na passagem para a vida adulta. E com disciplina, pode mesmo tornar-se um caminho profissional e um projeto de vida para aqueles que nela encontrarem sua vocação.


>> Leia também: O outro lado da dança: imagem corporal negativa e transtornos alimentares

Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

 A dança na adolescência: como motivar os alunos e ajudá-los a crescer