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Lopes, M. C. (2020, julho 28) Ausência do contato físico: a dança em tempos de pandemia [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Por exemplo, se eu estou participando de uma aula de dança online da qual um amigo faz parte, é legal combinar um chamada de vídeo alguns minutos antes ou depois para conversar sobre os exercícios ou mesmo sobre o cotidiano. É o tipo de espaço que surge naturalmente em uma aula presencial, mas que agora precisa de ações ativas para acontecer, seja de pessoas físicas ou de escolas de dança, por exemplo. 

Criar espaços de conversa, a fim de alimentar essa rede de apoio social à distância, é o melhor remédio para essa questão no momento. É fazer reuniões simplesmente para colocar o papo em dia, cantar parabéns para quem está fazendo aniversário, esse tipo de coisa. Não são espaços físicos, mas ajudam de alguma forma.


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Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

A pandemia do novo coronavírus trouxe uma série de novos desafios para a vida cotidiana, e um dos maiores deles foi aprender a lidar com o distanciamento social. Mais do que apenas não ter contato presencial com amigos, colegas e até mesmo parentes, muitas pessoas estão sofrendo pela ausência de um outro tipo de atividade essencial: o contato físico.

Na dança, o contato físico é parte natural da dinâmica das aulas e eventos. Visto como uma das principais atividades físicas voltadas à socialização, ele está presente na dança desde simples aperto de mão e abraço de cumprimento até o ensinamento dos passos e a elaboração de coreografias grupais. Há, inclusive, modalidades baseadas intensamente no contato humano e troca de sensações, como é o caso das danças de salão e outras desenvolvidas a dois.

Com o afastamento completo promovido como medida de contenção da Covid-19, mesmo com a manutenção das aulas virtuais, alunos, professores e coreógrafos estão desprovidos desse tipo de contato, para muitos diário até então. Para entender os impactos dessa ausência e como lidar com eles, elaboramos algumas perguntas e respostas a respeito do assunto.


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“Precisamos entender que isso está além do contato físico, é o contato humano, o olho no olho, o contato cotidiano. Geralmente, tudo o que marcamos online tem uma razão para acontecer, e na vida ‘real’, isso é a aleatório, é diferente. São os dez ou quinze minutinhos que chegamos antes e papeamos sobre assuntos cotidianos, as brincadeiras, enfim. Então, torna-se nossa responsabilidade agora criar os espaços que antes simplesmente aconteciam naturalmente”

- Existe alguma solução para amenizar o impacto da ausência de contato físico?

O que temos são exatamente isso: medidas paliativas. Se as restrições de sair de casa e ter contato físico de fato não podem ser quebradas, o que podemos fazer é encontrar soluções que diminuam o impacto dessa ausência, que tem a ver com os momentos que construímos com as outras pessoas.

Ausência do contato físico: a dança em tempos de pandemia

Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

- Quais são os impactos do isolamento social que se instalou devido à pandemia?


A falta de socialização pode ocasionar um aumento dos níveis de ansiedade e depressão, e relacionado ao momento de vivemos, também provocar um medo muito forte, que se instala com comportamentos que, passada a pandemia, não farão mais sentido, como checar a limpeza o tempo todo e temer o contato com o outro.


- Os impactos da falta de contato físico são os mesmos do isolamento?

Os sintomas são os mesmos, mas existe um adicional: quem não dispõe de um contato físico, muitas vezes não encontra um momento de conforto. O contato físico no geral, e mais especificamente na dança, proporciona uma sensação de conforto, de acolhimento para o ser humano. No caso das crianças, é aquele brincar o tempo todo, e no caso dos adultos, é o abraço, a presença. 

Muitas vezes não temos o hábito de expor tanto em palavras que estamos ali para o outro; abraçamos e pronto, está dito. Não temos essa possibilidade agora. E isso estamos falando a nível apenas mental: a falta de contato físico pode ser muito problemática pra quem não sabe verbalizar esse apoio, aumentando a sensação de isolamento e problemas como ansiedade e depressão.

Para além disso, fisicamente, a ausência desse tipo de contato é péssima. O tempo todo nosso corpo busca o conforto: sentar em uma posição melhor na cadeira, abraçar uma almofada ou o travesseiro enquanto dorme, tudo isso são quase substituições ao contato físico. E muitas vezes, não encontramos o mesmo conforto dentro de casa que encontraríamos fora: para o adolescente, é a falta de um grupo que lhe confira identidade, para o idoso, muitas vezes, significa estar completamente sozinho. Não é só o contato físico do abraço, são as brincadeiras, o olho no olho, que pela câmera, não é a mesma coisa. Tudo isso resulta num isolamento muito mais intenso.


- Existe alguma condição em que a pessoa pode ser mais afetada por essa ausência de contato físico?

Para pessoas com ansiedade social, por exemplo, o desconforto do toque pode se tornar conforto a partir do momento em que ele é promovido com pessoas de quem elas gostam e perto de quem se sentem menos ansiosas. Nesse caso, a ausência desse contato, seja na dança ou não, é bastante problemática.

Para entender isso, precisamos pensar que existem pessoas que sentem ansiedade social, mas lidam bem com o problema: fazem home office, EAD, decidem não ter uma família e vivem confortavelmente com isso. Sentem-se bem. Outras pessoas sofrem absurdamente porque desejam ter o contato com o outro, ao passo que a ansiedade se torna uma barreira para aquilo que elas anseiam.

Nesse caso, pessoas que alcançaram um certo conforto social, seja ele promovido pela dança ou não, ou seja, aquelas que conseguiram um progresso ou fazer com que a “coisa” funcionasse minimamente, sentem-se quase como um retrocesso, temem não conseguir sair de casa depois. Essa sensação pode ser muito forte.