Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Posteriormente, temos a repetição. Nesse processo, o bailarino começa a refinar os movimentos aprendidos. Nessa fase, a atenção e a tomada consciência são cruciais. A percepção e o controle do movimento vão levar efetivamente à terceira fase do processo de aprendizagem, chamada de autônoma. O aprendizado se consolida, e nesse momento, o bailarino pode se concentrar em agir sobre os passos, alterando a dinâmica da sequência, mudando o tônus do movimento.

Para Ribeiro & Teixeira (2009), nessa fase, o conhecimento adquirido pode ser conscientemente lembrado, mas a atenção não se volta para os movimentos, e sim para a interpretação. Neurologicamente, isso significa que as atividades do movimento, antes sob atividade do córtex pré-frontal, ficam sob responsabilidade do cerebelo e núcleos da base, liberando os circuitos pré-frontais para se concentrar em outras tarefas. É como se o movimento cru ficasse automatizado, de forma que o bailarino pode se concentrar totalmente nas particularidades de sua execução. Daí a importância tão grande de repetir, repetir e repetir - é assim que o movimento será neurologicamente absorvido pelo corpo.

É na fase autônoma, portanto, que ocorre a verdadeira expressão da dança coreografada pelo bailarino. Ainda durante as repetições, ele pode começar a se atentar aos acentos, acelerações e desacelerações, retenções, o que dá a graça particular a quem executa. A liberação do córtex pré-frontal é o que abre espaço para que o dançarino divida sua atenção entre os companheiros, o espaço, a música, e posteriormente, às reações da plateia e a qualquer imprevisto que possa ocorrer sem prejuízo à sua execução motora. É também o que permite a ele dançar de maneira intencional e expressiva, moldando cada fragmento às suas emoções.

Em suma, a aprendizagem de coreografias envolve uma série de requisitos neurobiológicos que podem e devem ser estudados pelos novos métodos neurais trazidos pela ciência. Essa aproximação entre ciência e arte é valiosa para ambas: de um lado, proporciona novos saberes e conhecimentos inesperados; e de outro, possibilita a criação e aprimoramento dos processos metodológicos de ensino da arte.  


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Desde o final do século XX, a evolução dos métodos de neuroimagem ajudaram no estudo das bases neurobiológicas do comportamento humano. Com isso, vários estudiosos do ramo artístico-expressivo se aventuraram no universo neural para entender o que ocorre nosso cérebro enquanto dançamos.

Com base em diversos autores, Ribeiro & Teixeira (2009) propuseram em um artigo um modelo neural para a aprendizagem de coreografias dividido em três fases. O estudo explica o que acontece no cérebro do dançarino desde o momento em que vê a execução dos movimentos por seu professor e coreógrafo até quando chega ao palco, dançando não só com habilidade, mas também com emoção e expressividade. E salienta, sobretudo, que cada uma dessas etapas tem suas particularidades e são essenciais para o bom desempenho do bailarino. 


Na primeira fase do aprendizado, chamada cognitiva, seria demandada uma grande ativação das regiões corticais pré-frontais do dançarino. Funções executivas como a atenção seletiva, a memória operacional, a solução de problemas e a tomada de decisões, bem como o planejamento e a motivação, são especialmente recrutadas. Nesse estágio, o bailarino ainda está compreendendo a natureza da tarefa e buscando formas de atingir a sua meta - ou seja, a execução da coreografia.


O principal processo envolvido nessa fase é a simulação. Quando o bailarino observa o movimento que o coreógrafo está executando, ele simula o movimento internamente. E isso de maneira literal - regiões cerebrais ativadas durante os movimentos imaginados também se ativam durante a execução do movimento. Isso quer dizer que áreas cerebrais relacionadas com a produção do movimento (motora primária, suplementar e pré-motora) são empregadas mesmo que o indivíduo esteja em repouso.

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Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

REFERÊNCIAS:

M.M. Ribeiro; A. L. Teixeira. (2009) Ensaiando dentro da mente: dança e neurociências.  Universidade Federal da Bahia, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas. Repertório: Teatro & Dança, v. 12, p. 95-103. Salvador, BA.


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2020, outubro 22) Coreografias: tudo o que se passa no seu cérebro enquanto você aprende​ [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Coreografias: tudo o que se passa no seu cérebro enquanto você aprende

O mais interessante é que quando os dançarinos apresentam familiaridade com o movimento, essas áreas de simulação se mostram mais fortemente afetadas. Isso quer dizer que o aprendizado prévio de um determinado estilo de movimento pode facilitar a aquisição de combinações sequenciais de movimentos semelhantes. Se o visual é importante para o aprendizado cognitivo e motor, e se esse aprendizado deve ser progressivo, coreógrafos e professores podem se valer de um tempo especial e maior para mostrar os passos, e também empregar em suas aulas um ensinamento gradual dos movimentos, sempre baseado em técnicas anteriores. 


Na segunda fase, chamada de associativa, ocorrem dois processos essenciais para a consolidação da coreografia: a imitação e a repetição. A imitação envolve o que chamamos de neurônios-espelho e compõe um dos momentos que mais exigem do bailarino. Ele precisa observar e sincronizar várias modalidades sensoriais, criando um cenário em que a dança acontece ao mesmo tempo do lado de dentro e do lado de fora. E para isso, se utiliza de um circuito neural específico.

Primeiro, o córtex temporal superior forneceria uma descrição visual da ação observada para os neurônios-espelho do córtex parietal. Estes forneceriam informações somatosensoriais adicionais do movimento observado ao córtex frontal inferior, codificando detalhadamente as especificações motoras para ele ser realizado. Nesse córtex, novos neurônios-espelho codificariam o objetivo da ação a ser imitada. Dessa forma, esse processo envolveria uma interação visuomotora, que requer tanto a observação quanto a execução.

A imitação também é um dos momentos que mais exigem a atenção do bailarino no que se refere ao seu próprio corpo. Estar atento ao esquema motor do movimento é o que chamamos, nas artes cênicas, de consciência corporal - é o que permite um grande capacidade de execução de movimentos complexos devido à seu conhecimento cinestésico. Quanto mais treina estar atento e desenvolver sua consciência corporal, maior será a ativação das áreas posteriores envolvidas com a produção do movimento. Por isso, insistir em uma execução consciente do movimento nessa fase, com atenção às suas particularidades motoras, são cruciais para o bom desenvolvimento coreográfico.