Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Dois grupos merecem atenção nesse processo. O primeiro deles são os perfeccionistas - pesquisas apontam que mais de 80% dos bailarinos profissionais possuem traços de perfeccionismo, o que pode gerar muita ansiedade e pensamentos distorcidos com relação a onde o sujeito realmente se encontra na escala entre o tudo e o nada. Já é provado cientificamente que pensamentos disfuncionais podem confluir para performances de menor qualidade, ou uma intensa desmotivação a continuar, além de em casos mais graves, recaírem em transtornos de diversas naturezas, como depressão. Uma visão mais realista e um cuidado com suas próprias percepções são vitais nesse momento.

E por último, para aqueles que colocaram metas para 2020, o segredo é reavaliar seus planos. Para algumas, ter em mente que a dança é generosa, e com dedicação, essas metas podem ser simplesmente adiadas, é um bom caminho para o retorno. Mas para aqueles que acreditam que esse ano era realmente decisivo para alcançar seus sonhos, e que eles não podem continuar por alguma razão, é necessário um olhar mais profundo para o papel da dança em suas vidas. Tendo o corpo como instrumento, a dança promove uma profunda relação do indivíduo consigo mesmo, e mantê-la sempre saudável é crucial para a saúde mental do dançarino. 


Será que minha dança se perdeu durante a quarentena?

COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2020, agosto 13) Será que minha dança se perdeu durante a quarentena? [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/ser--que-minha-dan-a-se-perdeu-durante-a-quarentena----psicologia-da-dan-a.html

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

O medo de perder boa parte das técnicas aprendidas e dominadas a partir do aprendizado vem sobretudo de uma cognição disfuncional, ou seja, um pensamento que surge a partir de uma construção falha da realidade. A psicologia da dança já identificou vários pensamentos disfuncionais comuns no ambiente da dança, sendo um deles chamado de pensamento “tudo ou nada”. Ele se refere a uma condição em que o sujeito só consegue identificar dicotomias ao analisar uma situação, sem enxergar o meio termo que geralmente condiz muito mais com a condição em que se encontra.

O receio que leva a esses questionamentos pode estar justamente relacionado a esse tipo de pensamento. No que se refere à técnica, é preciso frisar uma realidade: ninguém vai voltar 100% logo de cara. Talvez um ou outro, que se dedicou dez vezes mais porque suas condições de vida durante a pandemia assim permitiram, consiga. Mas para a grande maioria, principalmente aqueles que interromperam suas práticas habituais, é necessário enxergar o retorno mais como uma escala do que como perda ou ganho. Isso quer dizer que a afirmação contrária também é verdadeira: ninguém terá de começar do zero.

Muitos dançarinos param completamente de dançar por um tempo, e quando retornam, apesar de não estarem no ápice, conseguem executar com qualidade os movimentos aprendidos anos atrás. Isso porque a perda acontece de maneira parcial; uma vez que o aprendizado ocorreu, muitas vezes é uma questão de tempo para que o corpo readquira a maestria perdida devido à falta de prática. Enxergar o que foi perdido e o que se manteve, e entender o que precisa ser recuperado, é um bom primeiro passo para o retorno.

No geral, pode levar um tempo para que o corpo volte a se adaptar, mas a chave para um bom retorno é correr atrás. Deixar o pensamento dicotômico de lado e entender que a dança pode ser trabalhada e melhorada, e que os desafios podem ser superados novamente - como a dança nos mostra o tempo todo. Cada corpo é diferente, e todos, do iniciante ao dançarino profissional, têm suas facilidades e dificuldades. E a persistência na retomada, na busca de um novo tônus para a dança, de se reapropriar do espaço com movimentos expansivos, de uma técnica mais precisa, ou o que você identificar que é necessário, será sua principal aliada para se mover nessa escala para mais perto do almejado e inalcançável 100%.

O fechamento de escolas, baladas e academias de dança durante a quarentena provocada pela pandemia de coronavírus levou alunos, dançarinos e até mesmo professores a reduzir sua rotina de práticas de dança, seja pela falta de um espaço adequado, ausência de aulas ou adiamento de espetáculos. Para muitos, inevitavelmente, isso levou a perguntas como: será que ainda vou saber dançar quando tudo isso acabar? Vou perder as técnicas que adquiri? Minha dança vai se atrofiar?

A resposta para todas essas perguntas está muito mais na sua forma de enxergar as coisas do que você imagina. A psicologia cognitivo-comportamental é uma abordagem da psicologia que evidencia a importância dos pensamentos (cognições) para o comportamento e emoções. Dentro dessa percepção, não é a situação em si que determina o que as pessoas sentem e como se comportam, e sim o modo como elas interpretam a situação. Como isso se aplica a esse caso específico?


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