O aprendizado, seja na dança ou em qualquer outra área do conhecimento, é um processo complexo, e que depende de diversos aspectos para se desenvolver no indivíduo. Jean Piaget (1896-1980), um dos maiores teóricos da inteligência humana e do aprendizado, defendia que o conhecimento é decorrente das contínuas interações entre o meio externo e o sujeito. O ambiente forneceria ao indivíduo uma gama enorme de informações, cuja assimilação e acomodação dependeria da própria transformação de suas estruturas cerebrais ocasionadas pelas interações anteriores.

Como explica Ferracioli (1999), Piaget estabelece alguns fatores principais para o desenvolvimento do indivíduo, sendo um deles a transmissão social. O contato com o outro, seja na forma de educação ou em contatos sociais, é uma fonte primordial de informações que o indivíduo receberá e assimilará ao longo do tempo, de acordo com as estruturas relativas ao seu nível de pensamento. Logo, a socialização, fator intensamente presente na dança, é uma fonte rica para o desenvolvimento do dançarino a curto, médio e longo prazo.

Podemos estabelecer essa importância em dois contextos diferentes, mas que estão conectados. O primeiro tem a ver com o processo de aprendizado em si. Um exemplo, como aponta Lopes (2019), é que os indivíduos aprendem muito apenas a partir da observação, levando em conta não apenas o professor ou treinador, mas também seus colegas. O dançarino tenta imitar aquilo que lhes parecem bonito ou correto, um processo natural de aprendizado que desenvolvemos desde muito cedo.


>> Leia também: O vínculo professor – aluno na dança.

Mas se não há um método único para uma boa convivência diária entre professor e aluno, como saber se a relação está sendo benéfica para o dançarino? Jowett e Ntoumanis (2004) estabeleceram um método de avaliação dessa relação baseado nos pensamentos, sentimentos e comportamentos envolvendo treinadores e atletas, chamado Coach-Athlete Relationship Questionnaire (ou Questionário do Relacionamento entre Treinador e Atleta, em tradução livre).

Esse questionário, que foi adaptado por Rubio et. al. (2017) também para professores e alunos, busca avaliar a relação multidimensional entre os indivíduos baseados na proximidade (closeness), comprometimento (commitment) e complementaridade (complementary) que estabelecem entre si. Ele é composto de 11 afirmações, as quais devem ser avaliadas em uma escala de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente) pelo dançarino. Na tabela a seguir, mostramos o que significa cada um desses 3 “C” e as perguntas que compõem essa avaliação, incluindo duas que se referem à satisfação do aluno com a relação.

REFERÊNCIAS: 


Ferracioli, L. (1999). Aspectos da  construção do conhecimento e da aprendizagem na obra de Piaget. Cad. Cat. Ens. Fís., v. 16, n. 2, p. 180-194.

Lopes, M.C. (2019). Curso psicologia da dança: temas e perspectivas. Editora Garcia. Juíz de Fora, MG.


Rubio, V. J. Lopéz-Jiménez, A. Sanchés-Iglesias, I. Jowett, S. (2017). Validating the TDRT-Q to assess the quality of the teacher-dancer relationship. Revista de Psicología Del Deporte, vol. 16, n. 2, pp. 71-79.


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2020, setembro 15) Socialização: a importância da relação entre professores e alunos no desenvolvimento e aprendizado da dança​ [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/socializa--o--a-import-ncia-da-rela--o-entre-professores-e-alunos-no-desenvolvimento-e-aprendizado-da-dan-a.html

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

O questionário se mostrou eficiente em diversas pesquisas que envolveram atletas, estudantes, crianças, adolescentes e treinadores, e em diversos países, o que comprova seu valor geral, independente da cultura em que esteja contextualizado. Além de ferramenta de estudo, ele também pode ser uma boa maneira de mensurar a relação estabelecida entre os alunos e professor em uma escola, academia ou companhia. Os resultados podem ser um norte do que pode ser melhorado a fim de proporcionar um aprendizado mais eficiente e saudável aos alunos.

Ao fim desse texto, cabe a conclusão: professores formam pessoas, e não apenas alunos, bem como treinadores não formam apenas atletas. Como chave da socialização do dançarino em seu universo, adotar as melhores estratégias para proporcionar um ensino de qualidade deve ser tão importante para o professor quanto estabelecer uma relação saudável com o dançarino, marcada pelo respeito, a confiança, o comprometimento e a cooperação entre as partes. Dessa forma, desempenho e formação caminharão de mãos dadas, com resultados mais palpáveis para ambos os lados e indivíduos mais seguros e felizes.

Socialização: a importância da relação entre professores e alunos no desenvolvimento e aprendizado da dança

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

Lopes (2019) também cita Vygotsky ao explicar o que chamamos de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) - basicamente, se refere ao estágio de aprendizado em que o indivíduo ainda não é capaz de desenvolver conhecimentos e tarefas que aprendeu sozinho, mas sim com o auxílio de outra pessoa. Nesse caso, se destaca sobretudo o auxílio do professor e sua identificação das necessidades do aluno, processos construídos em cima da dinâmica de convivência estabelecido entre ambos.

A dança, bem como outros esportes, também possui um campo específico de desenvolvimento, que tem a ver com a diferença entre a compreensão e a capacidade de execução dos movimentos. A demonstração dos movimentos, seu direcionamento através da fala e a manipulação do próprio corpo do aluno são fundamentais nesse trabalho, tarefa que também cabe quase em sua totalidade ao professor.


​Como explica Rubio et al. (2017), embora esteja sujeito a diversas relações no universo da dança, como fica claro a partir dos exemplos anteriores, a relação do bailarino com o seu professor parece ser o coração de todas elas e a com maior potencial para influenciar a experiência do indivíduo. Aqui não nos referimos apenas aos ensinamentos e estratégias que compõem o processo de aprendizagem em si, mas sim ao tipo de relação estabelecida entre professores/treinadores e alunos. Esse é o segundo contexto que influenciará o desenvolvimento do dançarino como um todo.

Estudos têm mostrado que relações bem estabelecidas, estáveis e harmoniosas entre treinadores/professores e seus alunos estão associadas a atletas com boa autoestima, percepções mais eficazes, motivação, paixão, satisfação e sensação de suporte social. Ao contrário, a falta de uma relação positiva entre esses indivíduos, marcada por relações turbulentas, pode afetar negativamente o desempenho, contribuindo para um maior risco de lesões provocadas por excesso de esforço, transtornos alimentares e sentimentos de raiva, frustração e isolamento.

Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança