Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Ensinando crianças

Na dança, pode ser raro trabalhar com bebês (entre 1 e 3 anos), mas se isso acontecer, o ideal é estimular seu contato com o ambiente através do toque de diversas texturas. Nessa fase, a criança ainda está se diferenciando do resto do mundo, incluindo seus pais. Ela descobre suas vontades e se for reprimida demais, pode desenvolver um senso de vergonha e dúvida que persistirá para as fases posteriores da infância. Estimular a movimentação livre do corpo da criança, com palavras motivadoras e orientando o comportamento, é a melhor forma de ensinar nessa fase.

Até os seis anos, uma nova fase se abre na vida da criança. Aqui, ela se torna autossuficiente e aprende a seguir instruções, aumentando sua representação simbólica do mundo com gestos e palavras. Também cresce o senso de responsabilidade com o aumento da iniciativa, e se a criança for deixada ansiosa ou tiver um comportamento irresponsável, pode adotar sentimentos de culpa. Aqui, estimular a autonomia com comandos verbais e manipular o corpo da criança, incentivando-a a explorá-lo e ao ambiente, são boas pedidas. Dar tarefas, como organizar os materiais, também ajuda. É preciso deixar claro quando o pequeno errar, mas de forma compreensiva e orientando o caminho correto. Aprender sobre essa idade é importante - no balé, por exemplo, as crianças podem começar ainda nesta faixa etária.

Na última infância, que perdura até os 11 anos, as aulas já começam a se assemelhar um pouco mais às dos adultos. A criança já tem maior autocontrole e domínio de suas habilidades, bem como raciocínio lógico, de forma que atividades que a levem a compreender o movimento de maneira mais técnica e conceitual (a partir de metáforas) são importantes. Atividades sociais e competitivas também aparecem como boas opções - mas o cuidado com as comparações é crucial pois nessa fase a criança pode desenvolver um senso de inferioridade e incompetência, se não for capaz de superar os desafios propostos ou não for produtiva o suficiente. Encorajá-las a novas tarefas sem criticá-las pode ser um bom caminho. 


Ensinando adolescentes

A adolescência é uma das faixas etárias de ensino mais desafiadoras para professores de dança. Essa fase, que teoricamente perdura até os 18 ou 21 anos, é marcada por um pensamento mais abstrato, lógico e idealista. Os indivíduos estão tentando decidir quem são e o que compõe de fato sua identidade, o que pode levá-los a se desinteressar pela dança, se já a praticarem. Para que isso não ocorra, adaptar as aulas para esse público é essencial.

Experimentar possibilidades é a chave para que os adolescentes não permaneçam confusos sobre sua identidade na fase adulta, e a aula de dança precisa incentivar isso através da reflexão e da expressão. Permitir que os alunos se envolvam em diferentes grupos, sobretudo em turmas mais avançadas, ajudará a motivá-los e a estabelecer um contraponto eu-outro para a construção de sua identidade. Incentivar que criem trechos de coreografias para espetáculos e que escolham os temas das apresentações os fará sentir parte integrante do grupo, estimulando também a socialização. Orientá-los para explorarem suas movimentações de acordo com como se sentem os fará mais conectados e conhecedores de si mesmos enquanto dançam.

Embora na adolescência o indivíduo devesse adquirir autonomia e independência, a tradicional escola pode não ser capaz de oferecê-los além do campo acadêmico-profissional. Por isso, a dança pode ter um excelente papel na adolescência: seu formato grupal incentiva a criação de vínculos e a descoberta de si em contato com o outro, facilitando a independência de ideias. Além disso, o movimento lhes permite expressar sentimentos com os quais não estão preparados para lidar de antemão, ajudando em sua elaboração e regulação, o que permite o desenvolvimento e a autonomia emocional do indivíduo.

Uma das muitas habilidades das quais o professor de dança deve se nutrir é a de ensinar diferentes públicos. Entender as necessidades de cada grupo de alunos é um desafio que demanda atenção individual, e para além disso, um reconhecimento de qual fase da vida está vivendo cada pessoa. Ensinar uma criança, obviamente, é diferente de ensinar um idoso - tanto em termos de método quanto de técnica e de propósito. A questão não é simples e exige um entendimento global, tanto do indivíduo quanto do contexto em que ele está inserido, para então definir as melhores estratégias de aprendizado para cada grupo ou para cada integrante de uma turma. 

Nesse sentido, o conhecimento de algumas teorias de desenvolvimento pode ser essencial. Embora cada indivíduo seja único e enfrente os próprios desafios em seu desenvolvimento - aqui entendido como as mudanças dentro de um contexto ao longo do tempo - é certo que cada fase da vida apresenta peculiaridades muito parecidas para determinadas faixas etárias. Crianças muito novas sempre terão que desenvolver seus movimentos. Adolescentes terão que enfrentar as mudanças próprias da puberdade. Idosos terão que lidar com a perda gradual de mobilidade.

Teóricos como Piaget e Erikson se debruçaram sobre a questão do desenvolvimento humano, tanto do ponto de vista da maturação do conhecimento (no caso do primeiro) como da formação da identidade (no caso do segundo). Ambos dividiram os períodos de desenvolvimento em faixas etárias. Elas funcionam como norteadoras do pensamento: não devem ser pensadas como categorias fixas em que as pessoas devem se encaixar perfeitamente, mas como um conjunto de desafios comuns de cada idade, que podem se perpetuar se não forem corretamente superados no período do seu aparecimento.

Considerando o desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental dos indivíduos, listamos algumas dicas de acordo com as necessidades de cada faixa etária, visando fornecer uma base mais sólida para ensinar indivíduos de diferentes idades.

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432 

Ensinando adultos

Embora adultos possam parecer um público mais simples de lidar, é comum que muitos deles carreguem “problemas não resolvidos” das faixas etárias anteriores, que podem e devem ser trabalhados em sala de aula para um desenvolvimento pleno dos indivíduos na dança.

Dos 21 aos 40 anos, com a identidade relativamente formada, os indivíduos passam a procurar se relacionar de maneira mais profunda com seus pares. É possível que alguns adultos procurem na dança apenas uma atividade grupal prazerosa, enquanto outros não desenvolveram um ego forte o suficiente na adolescência, ou trazem conflitos de fases de desevolvimento anteriores. Muitos são os adultos culpados, envergonhados e confusos, de forma que as atividades adequadas à infância e à adolescência podem se encaixar perfeitamente para eles - bem como para os saudosistas que já dançavam e buscam agora  se reconectar com sua identidade. 


Dos 40 até os 60 anos, os adultos experimentam uma fase de amadurecimento, em que a identidade está mais bem estabelecida e os indivíduos entram em um período de geração e produção - tanto na vida profissional quanto nas dinâmicas familiares, com a criação dos filhos e a necessidade de cuidar do que foi gerado até aqui. Fortalecer a identidade com coreografias de final de ano, por exemplo, é estimulante para esse público, que também sente a necessidade de produzir.

Ensinando os idosos

Este é um período de reflexão sobre a vida, para a qual a excessiva nostalgia pode não ser o melhor caminho. A dança pode ajudar pessoas nessa faixa etária a terem atividades positivas no âmbito da socialização, expressão, produção e emoção, focando na qualidade de vida desse público. A prática da dança para essa população é essencial para a autoestima do idoso, uma vez que aumenta a mobilidade e permite maior autonomia nesse sentido. A atividade também é notoriamente positiva para a diminuição do estresse e ansiedade, promovendo a socialização saudável e evitando a solidão.


Enfim, o indivíduo

Chegamos ao fim com uma conclusão muito importante: embora as faixas etárias sejam norteadores valorosos no processo aprendizagem, sobretudo para a definição do propósito do ensino, seu uso exige uma compreensão profunda do indivíduo e de seu contexto, especialmente quando os alunos não se enquadrarem no desenvolvimento mais adequado à sua idade. Por isso, é preciso estar sempre atento às necessidades e situações individuais, mesmo em grupo, a fim de que os alunos possam explorar ao máximo seu potencial e continuarem desenvolvendo a si mesmos e à sua dança.


REFERÊNCIAS


Lopes, M.C. (2019). Curso psicologia da dança: temas e perspectivas. Editora Garcia. Juíz de Fora, MG. 


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2021, novembro 01) Teorias de desenvolvimento: como ensinar para diferentes faixas etárias​ [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/
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Teorias de desenvolvimento: como ensinar para diferentes faixas etárias