Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Mas como a prática da dança pode, então, prejudicar a autoestima?

Nesse mesmo estudo, Kalliopuska (1989) encontra casos de bailarinos com baixos índices de autoestima - e é aqui que podemos começar a identificar o que não vai bem. Segundo a autora, ao contrário da valorização, aceitação e respeito por si mesmo que caracterizam indivíduos com níveis altos de autoestima, uma autoestima muito baixa pode refletir sentimentos de inferioridade, culpa ou mesmo ódio de si mesmo. Ela explica que bailarinos que apresentaram esses sentimentos podem sofrer uma pressão normativa muito forte para manter seu curso, mesmo sem desejá-lo. E que, se os talentos dos jovens alunos não são compatíveis com as demandas, as cobranças excessivas podem levar a sentimentos de inferioridade, baixa autoestima e autodepreciação.

Essas pontuações podem levar a uma reflexão sobre o impacto do perfeccionismo em modalidades de dança, especialmente do balé. É notório que o alto nível de exigência pode estar relacionado à baixa autoestima dos indivíduos, que não conseguem se adaptar e por vezes são cobrados em níveis irreais de perfeição (até por si mesmos), o que pode levar a pensamentos disfuncionais sobre sua capacidade, consequentemente afetando sua autoestima. Também é possível pensar sobre o papel da motivação extrínseca na vivência da dança por muitos jovens, obrigados a continuar a seguir praticando a atividade mesmo sem desejá-lo, o que pode prejudicar seu desempenho e impactar sua autoestima.

Mas há outras questões. Considerado que o período da infância, e em especial, da adolescência, costumam ser os mais comuns para a iniciação na dança como profissão - sendo, concomitantemente, um período de construção de identidade para o indivíduo - um dos aspectos que mais podem impactar a autoestima dos bailarinos são os padrões corporais. E nesse ponto, é preciso um olhar mais amplo sobre a questão.

Um estudo conduzido por Moehlecke et. al. (2020) com mais de 70 mil adolescentes brasileiros mostrou que 45% se mostraram insatisfeitos com seu peso corporal, mesmo que a maioria da amostra se encontrasse dentro do índice de IMC recomendado. Além disso, a prevalência para essa insatisfação foi relativamente mais alta para as meninas do que para os meninos. Até aí, um problema geral, atribuído a fatores como as imagens de referência corporal comumente utilizadas na mídia de massa e mais recentemente nas redes sociais, que podem influenciar o desejo de mulheres e homens em relação ao corpo ideal.

No entanto, o estudo de Bettle et. al. (2001) mostrou que adolescentes bailarinas mostraram uma imagem corporal e autoestima piores do que as do grupo de controle de não-dançarinas da mesma idade. O autor ressalta que “uma vez que a atmosfera no balé é altamente competitiva, a estudante se depara com uma enorme pressão em relação à forma de seu corpo (...). Distúrbios de imagem corporal semelhantes aos encontrados em pacientes com anorexia nervosa foram observados em dançarinos”. O resultado é que a imagem insatisfatória de si mesma, frequente entre muitas adolescentes, parece ser ainda mais pronunciada entre as alunas de dança - que são cobradas sobre isso continuamente e precisam lidar com seus corpos refletidos em espelhos o tempo todo (Radell, Adame & Cole, 2002). 

O tema é ainda mais profundamente abordado em um estudo de Price & Pettijohn (2006), que avaliaram o efeito dos trajes de balé no desempenho e na autoestima de bailarinas. Ao submeterem as bailarinas a um questionário após realizarem uma aula com os tradicionais collant e meia calça, e uma com roupas à escolha delas, os resultados apontaram que dançar com uma roupa justa em comparação com uma roupa folgada faz com que as bailarinas se sintam mais negativas em relação a seus corpos, personalidades e desempenho. Segundo os autores, isso se deve, provavelmente, ao fato de a roupa evidenciar partes do corpo que podem causar incômodo às bailarinas, por estarem fora do padrão estético esperado.


Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | +55 21 990922685

Como melhorar esse cenário?

Mais do que consequências da realidade experimentada por muitos dançarinos, os pontos levantados nesse texto devem indicar oportunidades de intervenção que visem a aumentar a autoestima de bailarinos no ambiente da dança.

Neste sentido, intervenções com foco em autoestima e autoconceito podem ser eficazes. Como aponta Haney e Durlak (1998), uma revisão de 116 estudos sobre intervenções dessa natureza mostraram que, em geral, elas resultaram em uma melhora significativa na autoestima e autoconceito das crianças e adolescentes, e em significativas mudanças concomitantes no comportamento, personalidade e desempenho acadêmico.

Segundo Bettle et. al (2001), programas de prevenção de transtornos alimentares em escolas de dança também podem promover uma redução significativa na preocupação com o peso e forma, melhorando as atitudes dos dançarinos em relação aos próprios corpos. No trabalho de Piran (1999), por exemplo, os diálogos dos professores visavam a substituição da ênfase na forma corporal por uma ênfase na resistência e condicionamento corporal. Os professores foram proibidos de fazerem comentários avaliativos sobre a forma corporal para seus alunos, e foi introduzido um membro da equipe que podia ser contatado pelos alunos a respeito de preocupações com a forma do corpo.

Essas são apenas algumas estratégias que podem ser empreendidas por professores e instituições para evitar que o contexto da dança se torne prejudicial à autoestima do indivíduo. É sempre importante lembrar que a dança, em si, é uma atividade milenar que faz parte da expressão do ser humano e contribui para a sua saúde em todos os aspectos. Seus malefícios para a autoestima e para qualquer aspecto da saúde mental ou física do ser humano devem ser observados sempre à luz dos contextos em que está inserida, certamente responsáveis pelos efeitos indesejados.


REFERÊNCIAS:


Bettle, N., Bettle, O. (2001) Body image and self-esteem in adolescent ballet dancers. Perceptual and Motor Skills, 93, 297-309.

Haney, P., Durlak, J. A. (1998) Changing self-esteem in children and adolescents: a meta-analytic review. Journal of Clinical Child Psvchology, 27, 423-433.

Kalliopuska, M. (1989) Empathy, self-esteem and creativity among junior ballet dancers. Perceptual and Motor Skills, 69, 1227-1234.

Mazo, G., Cardoso, F., Aguiar, D. (2006) Programa de hidroginástica para idosos: motivação, autoestima e autoimagem. Rev Bras Cineantropom Desempenho Hum, 8 (2),  67-72.

Moehlecke, M., Blume, C.., Cureau F., Kieling C., Schaan B. (2020) Self-perceived body image, dissatisfaction with body weight and nutritional status of Brazilian adolescents: a nationwide study. Rio de Janeiro: Jornal Pediatra; v. 96: p. 76-83.

Piran, N. (1999) Eating disorders: a trial of prevention in a high risk school setting. The Journal of Primary Prevention, 20, 75-90.

Price, B. R., Pettijohn, T. F. (2006) The Effect of Ballet Dance Attire on Body and Self-Perceptions of Female Dancers. Social Behavior and Personality, 34(8), 991-998.

Radell, S. A., Adame, D. D., & Cole, S. P. (2002) Effect of teaching with mirrors on body image and locus of control in women college ballet dancers. Perceptual and Motor Skills, 95 (3), 1239-1247.

Radell, S. A., Adame, D. D., & Cole, S. P. (2003) The effect of teaching with mirrors on body image and locus of control in women college dancers: A pretest-posttest study. Research Quarterly for Exercise and Sport, 74 (1), A-3.

Schwender, T., Spengler S., Oedl, C., Mess, F. (2018) Effects of Dance Interventions on Aspects of the Participants’ Self: A Systematic Review. In Front. Psychol. 9:1130.


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2021, MAIO 24) Dança e autoestima: efeitos positivos e negativos da prática [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/dan-a-e-autoestima--efeitos-positivos-e-negativos-da-pr-tica.html

Dança e autoestima: efeitos positivos e negativos da prática

Os efeitos da prática da dança para o aumento da autoestima dos indivíduos é um tema que, ainda hoje, gera controvérsias entre estudiosos. Numerosos são os estudos que apontam resultados efetivos da dança para o aumento da autoestima, tanto em crianças e adolescentes como em adultos (Schwender et. al., 2018). Porém, há também estudos que mostram que a prática da dança pode estar relacionada a altos índices de insatisfação corporal e baixa autoestima, especialmente em meninas adolescentes (Bettle et. al, 2001). O que gera esses resultados tão conflitantes? 


É certo que os estudos apresentam suas próprias diferenças a respeito do público de estudo escolhido e os métodos de pesquisa e avaliação, e essa é uma diferença importante na hora de considerar os resultados (Schwender et. al., 2018) - afinal, os efeitos da prática da dança em bailarinos profissionais serão diferentes do que na população em geral. No entanto, nossa análise deve ser mais profunda, com um olhar sobre o contexto sociocultural em que estamos inseridos, e mais particularmente, sobre o ambiente específico da dança a que os alunos estão submetidos.


É importante frisar que a dança, em si, como atividade física e lúdica, dificilmente pode ser considerada a responsável pelos resultados de baixa autoestima encontrados em bailarinos em alguns estudos. Segundo Mazo, Cardoso e Aguiar (2006), a dança está associada ao aumento da alegria, da autoeficácia e do autoconceito, levando a uma sensação de sucesso que, por sua vez, reforça a autoimagem e a autoestima positiva.

Além disso, como mostrado em estudo de Kalliopuska (1989), bailarinos adolescentes frequentemente apresentam hábitos e hobbies que exigem a autoexpressão e a empatia, apresentando pontuações mais altas que grupos de controle nesses quesitos. Segundo a autora, “a empatia é uma ferramenta importante para um bailarino (...). Ao projetar um papel, um dançarino tem que tentar transmitir ao público o que é central e essencial na função (...) uma ativa e duradoura empatia, na verdade, só é possível com uma autoestima saudável”.


>> Leia também: Consciência corporal e expressão: por que a dança deve ser ensinada às crianças ainda na escola