Maria Cristina Lopes Quando a mente está leve a dança flui Psicologia da dança

Embora a dança seja apontada por diversos autores como uma atividade promotora da saúde física, mental e emocional do indivíduo, hoje já é conhecido que, sobretudo para quem escolhe seguir na atividade de forma profissional, a dança pode trazer inúmeros desafios. Entre muitos exemplos, podemos citar a baixa taxa de formalidade da profissão no Brasil, que gera uma remuneração incerta, bem como as lesões, a sobrecarga de treinos, a cobrança sobre um padrão estético corporal e até mesmo condições mais intrínsecas à prática, como a dificuldade de aprender e executar os movimentos, a ansiedade do palco e a frustração gerada pelos erros.

O fato é que todo bailarino, profissional ou amador, tem que lidar com as adversidades em sua jornada. Porém, cada pessoa responde de uma forma diferente às situações a que é submetida, podendo sair delas fortalecidas ou carregar traumas que muitas vezes a impedem de continuar ou de se desenvolver de maneira plena. 


​Mas o que faz com que algumas pessoas reajam de um jeito, e outras de modo tão diverso?

É certo que a motivação para continuar pode ser decisiva quando o indivíduo é exposto a uma ou muitas situações estressantes, mas outro conceito muito importante está na capacidade do bailarino de ser resiliente. 


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“A resiliência pode ser definida como uma capacidade universal que possibilita a pessoa, grupo ou comunidade prevenir, minimizar ou superar os efeitos nocivos das adversidades, inclusive saindo dessas situações fortalecida ou até mesmo transformada, porém não ilesa.”

(Grotberb, 1995, apud Mota, Benevides-Pereira, Gomes & Araújo, 2006, p. 58)


Indivíduos resilientes costumam apresentar características específicas, que os capacitam para enfrentar desafios e superá-los ao longo do tempo. Segundo Angst (2009), autoestima positiva, habilidades de dar e receber em relações humanas, disciplina, responsabilidade, receptividade, interesse e tolerância ao sofrimento são algumas das particularidades encontradas em pessoas ou grupos resilientes.

Porém, embora a resiliência possa ser considerada uma característica atribuída ao indivíduo (ou grupo), é preciso tomar cuidado: ela está longe de ser uma atributo individual e estanque. Muito pelo contrário, a resiliência depende de diversos fatores, não só do indivíduo como do ambiente, que podem contribuir ou inibir as chances para o desenvolvimento da resiliência. Eles são chamados, respectivamente, de fatores de proteção e fatores de risco.

Segundo Angst (2009), são considerados fatores de proteção, por exemplo, as relações parentais satisfatórias, a disponibilidade de fontes de apoio social, uma autoimagem positiva, bem como a existência de uma crença ou religião que norteie a vida da pessoa em questão. Elas são influências que muitas vezes melhoram as respostas dos indivíduos a situações negativas, favorecendo a sua adaptação.

Os fatores de risco, pelo contrário, dificultam ao indivíduo a superação dos problemas, a exemplo de relações familiares desestruturadas, falta de apoio social, pobreza e baixa autoestima. Mas esses fatores não são limitadores da resiliência do indivíduo e podem ser contrabalanceados por fatores de proteção que permitam a ele desenvolver sua resiliência. É bom lembrar, portanto, que a resiliência não é uma característica intrínseca de cada indivíduo ou comunidade, mas antes um atributo que depende de muitos fatores para se desenvolver e permanecer forte em cada ser humano - inclusive fatores externos, que independem dele mesmo.

Isso quer dizer que desenvolver a resiliência é possível - e para a dança, isso pode fazer uma grande diferença.

Gabriela Romão. Jornalista formada pela Universidade de São Paulo (USP), é especializada em escrita científica. Estuda dança desde 2016, com ênfase em modalidades de dança de salão.

Contatos: gabi.r.romao@gmail.com | @romaogabriela

Desenvolvendo a resiliência

Para além dos fatores de proteção e de risco, outros dois componentes podem contribuir para a resiliência de cada indivíduo. O primeiro deles é a autoeficácia: a crença do indivíduo em suas próprias habilidades individuais de se organizar e lidar com as adversidades. Isso pode ser trabalhado aos poucos pelos próprios professores em sala de aula, tornando os desafios mais adequados às habilidades dos alunos, por exemplo, e fazendo deles uma caminhada gradativa rumo ao progresso, evitando grandes frustrações que os façam desistir cedo e rápido demais.

O aumento da autoeficácia está relacionada, em alguns estudos, ao aumento da autoestima - fator de proteção já mencionado anteriormente com relação à pessoa resiliente. Nesse ponto específico, evitar forçar os dançarinos a padrões estéticos inalcançáveis através de comportamentos alimentares ou físicos inadequados também pode ser de grande valia para aumentar sua resistência e força diante das adversidades.

O segundo fator fundamental para o desenvolvimento da resiliência são as estratégias de coping (ou enfrentamento) aplicadas à dança. Consistindo literalmente em estratégias para lidar com situações difíceis, o coping exige do indivíduo o discernimento para adotar o conjunto de comportamentos mais adequado para si mesmo diante de cada problema enfrentado, seja planejando detalhadamente suas próximas ações, agindo ativamente para eliminar o problema ou se distraindo dele, quando assim pedir o momento. Você pode conhecer mais sobre as estratégias de coping aqui.

Por fim, para lidar com qualquer situação adversa na dança, três elementos são fundamentais às pessoas: conhecer a fundo o que origina a questão, a si mesmas e ao ambiente em que vivem. Para todos esses elementos, a psicologia torna-se ferramenta de apoio essencial, uma vez que visa munir o indivíduo não só de uma ressignificação dos diversos fatos da sua vida, mas também de estratégias com as quais, ele possa, sozinho, explorar os fatores necessários para desenvolver a sua resiliência, tanto na dança quanto na vida.


REFERÊNCIAS:


Angst, R. (2009). Psicologia e resiliência: uma revisão de literatura. Psicol. Argum., v. 27, n. 58 (pp. 253-260). Curitiba.

Grotberg, E. H. (2005). Introdução: novas tendências em resiliência. In: A. Melillo & E. N. S. Ojeda (Org.). Resiliência: Descobrindo as próprias fortalezas (pp. 15-22). Porto Alegre: Artmed.


Mota, D. C. G. A., Benevides-Pereira, A. M. T., Gomes, M. L., & Araújo, S. M. (2006). Estresse e resiliência em doença de chagas. Aletheia, 24, 57-68.


COMO FAZER REFERÊNCIA A ESTE ARTIGO: 

Lopes, M. C. (2021, outubro 02) O papel da resiliência para enfrentar as adversidades na dança. [Blog]. Recuperado de: https://www.mariacristinalopes.com/o-papel-da-resili-ncia-para-enfrentar-as-adversidades-na-dan-a.html

O papel da resiliência para enfrentar as adversidades na dança

Maria Cristina Lopes. Sou formada pela PUC-Rio e mestre pela Universidade de Coimbra. Trabalho com a dança desde 2013 e desenvolvi o 1º curso de psicologia da dança do Brasil em 2016. Sou defensora da área de psicologia da dança, atendo bailarinos, ofereço consultoria para escolas e companhias e capacito professores e psicólogos nesta área promissora.

Contatos: mariacristinalopes@gmail.com | 21 99305 3432